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OS CAMINHOS DA HISTÓRIA E SUAS LIÇÕES

1- História da Formação da Metade Norte

Num pronunciamento feito por Antonio Bandeira em 1996, abordando a origem da metade Norte, diz:
" A região Norte começou a assumir suas características a partir da terceira década do século passado com o processo da imigração. Primeiramente Alemã e, na Segunda metade do século, com a imigração Italiana e mais tarde com a Polonesa. O que dá o traço característico para essa região e vai ser determinante para a sua evolução pós-futura e perfil, é o processo de imigração e colonização, que desaguou nessa porção norte com a cultura de uma estrutura fundiária baseada desde o começo, em pequenas propriedades, desenvolvendo-se junto com a imigração, toda uma série de habilitações e conhecimentos diversificados trazidos da Europa, os quais contrastavam culturalmente com o que acontecia na Região Sul do Estado".
Essa cultura trazida do velho mundo, foi mais longe, determinando de forma rápida o povoamento de toda a Região Norte.
O mesmo Antonio Bandeira, mais adiante afirma;
" O processo de enxamagem consiste no seguinte: após algumas décadas de ocupação dessa região colonial mais antiga, à medida que as gerações de imigrantes se sucediam em famílias geralmente muito grandes e numerosas, o parcelamento da terra obrigava a emigração para outros locais, como forma de sobrevivência, e formavam-se novos núcleos populacionais muito próximos uns dos outros".
Com esta forma de emigração constante, as pessoas foram " tomando posse" de novas áreas e povoando aquela importante região do Estado, que não vivia a luta de fronteira com a América Espanhola, como a Região Sul.
Antonio Bandeira continua falando;
"Como o processo de industrialização nesse então, ainda não tinha sido desencadeado e o meio urbano ainda incipiente, não era atrativo, a opção era ir para novas áreas, descortinando fronteiras agrícolas e novas oportunidades de trabalho e desenvolvimento econômico".
Nessa ânsia de desvendar o desconhecido, descobriram grandes matarias de pinheirais, e outras essências nativas produtoras de nobres madeiras no alto Uruguai, e Campos de Cima da Serra e do Planalto Médio.
A partir desse momento, a Região Norte, desenvolve a exploração e a indústria da madeira nativa que existia de forma abundante. O processo de enriquecimento dessa região tem o seu início, o qual posteriormente foi acompanhado do desenvolvimento do cultivo da uva e da indústria do vinho, e mais adiante desenvolveu a criação de suínos e a indústria dos embutidos.
Em meio a esse processo de desenvolvimento industrial, naturalmente foi traçado o eixo Porto Alegre - Caxias do Sul, e todas as áreas vizinhas foram contaminadas, e as mais diversas indústrias foram sendo multiplicadas ao longo desse traçado, com forte influência européia, e de forma hegemônica.
Acreditamos que a partir dessa denominação regional, ocasionada pela cultura da gente que povoou o norte do estado, e pelos ensinamentos trazidos do velho mundo, onde havia uma clara concepção que o progresso e desenvolvimento acelerado de seu país ou de uma região, só seria possível através da industrialização, facilitaram a caminhada do processo evolutivo do norte riograndense, criando a partir daí, o processo de desigualdade regional que nós temos no Sul do Estado.
Na verdade, todos os primeiros passos progressistas da região norte (Metade Norte), foram acompanhados de avanços que possibilitaram um maior aproveitamento do que tinham ou produziam, e assim ocorreu com a exploração e industrialização da madeira, da uva, com a produção do vinho, da suinocultura com a indústria de embutidos, da fruticultura, com a produção de doces e geleias coloniais, e da produção de leite com a indústria dos seus derivados.
Outras industrias surgiram a seguir, como a de tecelagem e de máquinas e implementos agrícolas.

2- Forças que Ajudaram a Impulsionar o Progresso da Metade Norte

Além da cultura diferente do Gentio que povoou o Norte, a região teve o favorecimento de boas estradas de ferro, excelentes estradas rodoviárias e uma malha de distribuição de energia elétrica que facilitaram o desenvolvimento industrial e a fácil comunicação entre a capital, Porto Alegre, com seu porto organizado, interligando esses municípios hoje formadores da Metade Norte, com o resto do país.
Além disso, a população numerosa de Porto Alegre, era um mercado consumidor muito importante de tudo quanto se produzia nesse eixo Porto Alegre/Caxias do Sul.

3- Conclusão Inicial

A Metade Norte, não tinha raízes riograndenses, ao contrário, falou sempre com acentuado sotaque europeu, mas criava asas e avançava rumo ao futuro, traçando novos horizontes na busca de dias melhores, graças ao descortínio da sua gente, ao seu espírito empreendedor, a ânsia de buscar e aceitar constantemente os desafios dos caminhos da industrialização, a perseverança empreendedora e, principalmente, a capacidade empresarial lúcida, demonstrada ao longo dos anos.

4- História da Formação da Região Sul

A Região Sul do Estado começou a ser conhecida apenas como um "território de trânsito", lá por volta de 1732, quando bandeirantes paulistas vinham até aqui para aprisionar índios para fazê-los trabalhar nos engenhos paulistas como escravos, levando também cavalos e negros que conseguiam capturar nesta região, para vendê-los também em São Paulo e Minas Gerais.
Mais tarde, os tropeiros que conduziam estes animais, foram criando aldeamentos nos chamados "pontos de pousos", a maioria dos quais foram transformados em estâncias e posteriormente em vilas e cidades.
Os tropeiros, dessa forma não só abriam estradas, trilhas e caminhos, mas terminaram estancieiros, através de doações de sesmarias de terras feitas pela Império.
Os homens que povoaram inicialmente essas "sesmarias", localizadas em meio a um enorme "deserto verde" eram uns heróis e as mulheres que os acompanhavam, encarnavam as virtudes domésticas mais puras.
A função desses primitivos povoadores da região sul, era vigiar e manter os nossos limites fronteiriços com a América Espanhola nas constantes lutas e refregas pela posse definitiva do território.
Assim, a Campanha Riograndense, suas estâncias e seus povoadores permaneceram no primitivismo bárbaro, até o fim da Guerra do Paraguai, mas depois desse episódio, passou por uma remodelação de costumes e progrediu.
Foi na estância, isolada do mundo civilizado que nasceram os costumes, os hábitos, as lendas, a economia, a literatura, as tradições e os princípios políticos do Rio Grande do Sul, norteados pela coragem de defender a família, a terra, a honra e a dignidade.
A estância foi portanto, desde o começo histórico do Rio Grande do Sul e da região sul, a sua base de sustentação econômica, social e política.
Foi a forja que moldou o caráter , os costumes e o espirito livre, independente, decidido e corajoso da nossa gente.
Referindo-se "a importância das estâncias no Rio Grande do Sul", o General João Borges Fortes falando no "Instituto Histórico e Geográfico", em Porto Alegre, no dia 22 de outubro de 1931, disse:
"A estância foi a célula matriz do Rio Grande do Sul, surgindo numa terra de ninguém, virgem da civilização, ocupada pelas tribos esparsas e selvagens, desconhecida e abandonada, não obstante, já era cobiçada. A estância e seus moradores, viviam no isolamento forçado longe da colônia, esquecidos da metrópole, ignorados pelo resto do mundo.
A estância apesar de tudo era o símbolo de trabalho, o foco de resistência, padrão de soberania, era a raiz que mergulhava fundo no solo para determinar a conquista definitiva desta região para a pátria nascente."
Relembrando a caminhada histórica e evolutiva da economia do Sul Riograndense, vemos registrados:
1º O ciclo do couro
2º O ciclo do charque
3º O ciclo da carne industrializada e resfriada
Todos esses ciclos evolutivos estavam presos a única riqueza existente nesta região, a criação de bovinos.
" O ciclo do couro", o mais primitivo de todos, teve seu início lá por 1680 e foi até 1736 aproximadamente, quando apenas o couro dos bovinos exportados para a Europa tinha alguma valia.
" O ciclo do charque", representou uma fantástica mudança na economia do sul do Estado, quando além do couro, também era aproveitada a carne salgada que era exportada para alimentar o norte do Brasil.
O ciclo do charque teve seu pólo de desenvolvimento mais importante na cidade de Pelotas, lá por volta de 1779. O sucesso das charqueadas naquela região litorânea, estimulou que organizações industriais semelhantes, passassem a ser desenvolvidas noutros municípios, como Bagé, Jaguarão, Julio de Castilhos, Sant'Ana do Livramento, Quaraí, Itaqui e Uruguaiana.
Os campos da região Sul do Estado, com o advento das charqueadas, se fortaleceram.
As cidades que abrigavam as charqueadas, cresceram, e o comércio e sociedade nelas existentes, progrediram e adquiriram rompantes de costumes europeus, dando origem a um novo estilo de vida, mais galante e sofisticado.
Essa foi a primeira expressão histórica de progresso da região Sul, a indústria do charque.
Mais tarde, com o grande conflito europeu que originou a Primeira Guerra Mundial e a Segunda, entre os anos 1914/1918 e 1939/1945, os ingleses necessitando de alimentos para abastecerem suas tropas e o seu povo, instalaram grandes plantas frigoríficas e indústrias para produzir carnes enlatadas e resfriadas na Argentina, no Uruguai e na região Sul do Rio Grande do Sul.
Foi esse, sem dúvida, o começo da grande transformação do ciclo evolutivo da pecuária no Rio Grande do Sul, que a partir daí, deveria começar a trilhar o caminho do progresso, atendendo a atualização do mercado europeu que queria e exigia carne nova e nobre.
O ano de 1945, registrava o fim da Guerra na Europa, ao mesmo tempo que mostrava ao mundo os horrores deste conflito que arrasou cidades, economias e sistema produtivo dos países beligerantes.
As compras de mercadorias na América do Sul foram canceladas ou reduzidas ao mínimo, e a pecuária e agricultura que tinham na Europa seu grande mercado de sobrevivência e expansão, passaram nesse longo período, a ter apenas consumidores internos, sobrando alimentos produzidos no campo, com queda brusca e desastrosa de preços que originaram a quebra de bancos, indústrias, estancieiros, agricultores, e comércio envolvidos no processo.
O surto inicial de progresso e prosperidade da parte sul do Estado, sofreu um corte brusco e desastroso para todos. Começou com a quebra das charqueadas quando surgiram os grandes frigoríficos aqui implantados para produzirem os enlatados na cozinha industrial e também congelarem carne para exportarem para a Europa.

Na verdade, essas plantas industriais não vieram para ajudar o Rio Grande do Sul, mas apenas para suprir as necessidades momentâneas do continente Europeu. Tudo parecia que se alinhava para estabelecer um surto constante e necessário do progresso industrial nessa região, mas história era bem diferente, fazendo lembrar os versos de Colmar Pereira Duarte que dizem:
"E depois de tantas ganhas
Começaram a vir perdidas.
Como tudo nesta vida,
Hai que saber quando basta
As coisas que o tempo gasta
Devem ser substituídas."
Seguindo o curso histórico, com os ciclos da pecuária nos bons e maus momentos, veremos que em todos eles, desde o Rio Grande do Sul, embrionário até a década de 1970 com o desenvolvimento inicial da bovinocultura, seguido da ovinocultura, a pecuária foi a riqueza que movimentou a roda do progresso, do desenvolvimento e da esperança de dias melhores, considerando que tudo girava em torno dela.
Daí o porque da cultura e tradição da economia da região Sul do Estado.

5- As Forças que Ajudaram a Travar o Progresso da Região Sul do Estado

Assim como a região Norte teve vários fatores já descritos que ajudaram a impulsionar o seu progresso, a região sul teve muitos contratempos que frearam o seu desenvolvimento, mantendo-a atrasada, em função da sua posição geográfica fronteiriça com o Uruguai e Argentina, e das fortes lideranças políticas sul riograndenses, que estavam empenhadas nas lutas internas pela conquista do poder.
Resumindo, enumeraríamos as seguintes causas:

5.1- As Lutas Internas

As Revoluções internas existentes no Rio Grande do Sul, levaram o Estado a pensar e agir na construção da história riograndense, esquecendo de desenvolver progresso.
A liderança política existente nessa região, fez aflorar disputas ardorosas nas revoluções que foram de 1893 até quase 1930. Nesse período, as propriedades rurais do Sul do Estado e algumas dos Campos de Cima da Serra, empobreceram, devido à desatenção e idealismo da sua gente, que na sua grande maioria, abandonaram as propriedades e desgastaram suas fortunas, mantendo revoluções fratricidas.
Num determinado momento desse período, Borges de Medeiros, Supremo Mandatário do Rio Grande do Sul, por longo período, sabia muito bem que o nosso Estado deveria ser pacificado para que deixasse de fazer história e procurasse alinhar-se no caminho do progresso que já era percorrido com acerto e descortínio pelos Estados Federativos de Minas Gerais e São Paulo, principalmente este último, que aos poucos ia se transformando na "locomotiva" que puxava o resto dos Estados, construindo uma terrível aliança com Minas Gerais e assumindo a liderança da política nacional.

O Rio Grande do Sul naquela época, estava dividido, não em regiões pobre e rica, como hoje, mas em ideários políticos muito fortes, transformados em "lenços brancos" e "lenços colorados", que levaram a ressentimentos tão profundos que atravessaram gerações sem perdão de atos e atitudes.
No ano de 1930, o Estado sentiu que necessitava unir sua gente, acabando com as revoluções internas que dilaceravam suas economias, desorganizavam suas estruturas de trabalho semeavam ódio e retardavam o progresso, fatores que nada construíram de positivo, muito pelo contrário.
O Rio Grande do Sul, sentiu que necessitava mudar e aprender a "combater" no campo das idéias, abandonando as revoluções.
A partir desse momento, a "gauchada" se acalmou e começou a aprender a trabalhar na Metade Sul, onde residia a maior agitação, porque ali estava a maioria da liderança política mais forte do nosso Estado.
Pareceria que naquele momento, o Rio Grande do Sul começava a aprender uma sábia lição que diz: "Não procure ser heróico, quando basta ser inteligente".

5.2 - O Atraso nas Comunicações Ferroviárias

A rede ferroviária na região sul, era de má qualidade com "bitola estreita", no propósito "estratégico militar", de evitar que trens vindos da Argentina e Uruguai, que usavam "bitola larga", pudessem transitar por nossas ferrovias.
Além disso, a malha ferroviária na região era muito pobre.

5.3 - Péssimas Rodovias

As rodovias da região sul, eram de péssima qualidade e, praticamente todas eram de terra, sendo algumas chamadas de "estrada do inferno", como a que ligava Pelotas a Santa Vitória do Palmar, tal a sua precariedade.
Poucas pontes facilitavam as cruzadas dos rios que cortavam o traçado dessas rudimentares estradas rodoviárias, obrigando a passagem em "balsas".
Por incrível que pareça, também, a estratégia militar desaconselhava que fossem construídas pontes ao longo dessas estradas, como também qualquer melhoria no leito desses caminhos, no propósito de dificultar o fácil acesso de "tropas inimigas" em território brasileiro, tudo pela "segurança nacional".
Assim, dessa forma, a região sul foi acostumada a curtir a tragédia de ficar parada no tempo e isolada dos grandes centros consumidores e de avançados centros de civilização.
Em tempos mais recentes, meados da década de 1960, as estradas rodoviárias foram alargadas, asfaltadas, multiplicadas e recheadas de obras de arte que ajudaram a transpor rios, banhados e finalmente aproximaram a região sul do resto do Estado.

5.4 - A Falta de Energia

A energia elétrica inundou a região sul recém nas décadas de 1970/1980, quando ela se expandiu até o campo.
Antes desse período, toda ela era pobre em eletrificação e, todos nós sabemos que não há progresso, não há indústria, não há desenvolvimento onde falta energia elétrica.

5.5 - Falta de Uma Política Agropecuária Nacional

Em tempos mais recentes a falta de uma política agrícola dirigida ao setor, com garantia de continuação e continuidade, agravou o panorama.
A triticultura nacional, estimulada desde os tempos "Getulianos", quando parecia tornar o país auto independente, produzindo mais de 85% das suas necessidades que beiravam os 7.400.000 toneladas, surgiu uma desastrosa política dirigida ao setor, favorecendo as importações, arrasando a produção nacional e decretando a falência das organizações voltadas para essa alternativa que era muito importante para a economia da Metade Sul.
Hoje, produzimos ao redor de 20% das necessidades nacionais e importamos 80%!!
Esqueceram os governantes de olhar para um setor de interesse nacional que ajudava a somar renda no campo, era uma importante fonte geradora de empregos diretos e indiretos e movimentava comércio e indústria.
Certamente, não foi o produtor da Metade Sul que foi incompetente nesse setor.
A orizicultura é outra importante alternativa econômica de escala, na Metade Sul, pelo vigor do seu desenvolvimento, produzindo 50% da necessidade do consumo nacional.
Apesar de exercer uma importantíssima função social e econômica de escala, na Metade Sul, atravessa um momento muito difícil pelo seu elevado grau de endividamento.
A soja é outra importante alternativa agrícola desenvolvida nessa região, chegando a representar na década de 1970, o "carro chefe" da economia do Estado.
Hoje, luta também com problemas de endividamento agrícola e procura manter-se de forma competitiva, degladiando-se com dois gigantes, China e Estados Unidos da América do Norte.
A pecuária de Corte da Metade Sul é de excelente genética e a mais adequada a produzir carne de alta qualidade para exportação, em virtude do predomínio das raças européias no seu criatório.
Representa a bovinocultura, a maior tradição histórica da economia da Metade Sul, entretanto, ainda não conseguiu o seu merecido destaque econômico.
Até hoje viveu flutuando entre ciclos positivos e ciclos negativos,
Provavelmente, os últimos acontecimentos registrados no Continente Europeu, mudem favoravelmente a situação e aqueça essa alternativa.
A ovinonocultura mista, carne e lã, e produtora de lã, toda ela desenvolvida na região sul, conheceu 50 anos de glória, mas na década de 1990, mostrou sua fragilidade e dependência do comércio exterior. No seu auge, mantinha 42.000 produtores na Metade Sul, e gerava 100.000 empregos diretos e indiretos, quando existia um rebanho de 13.000.000 de cabeças povoando a região.
A queda de braço das Cooperativas de Lã, que representavam o "guarda chuva" protetor dessa importante alternativa na Metade Sul, decretou a desestruturação do setor em apenas meia dúzia de anos.
Assim, e aos poucos as grandes alternativas sócio-econômicas implantadas na Metade Sul, foram se desgastando e semeando pobreza no campo.

5.6- a Falta de Indústrias na Região

Finalmente, acreditamos que a falta de industrialização na Metade Sul, tornou o setor produtivo primário, muito vulnerável.
O que produzia terminava sendo vendido na região norte ou exportado, sem adicionar renda, gerar empregos, tributação, ou qualquer outro tipo de benefício que viesse a trazer o seu desenvolvimento.
O pior de tudo, é que todas as necessidades para desenvolver os setores produtivos na agricultura e pecuária, eram adquiridos na região norte, "tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres".
Dessa forma, chega a Metade Sul aos dias de hoje, ocupando 56,63% da superfície territorial do Estado, mantendo uma população de apenas 26% do total existente no Rio Grande do Sul.
O campo detém 188.074 propriedades rurais, representando 31% do total existente no território gaúcho.
Os indicadores econômicos dizem:

Especificação % Metade Norte % Metade Sul
PIBProdução IndustrialPopulação 83,80%90,00%74,00% 16,20%10,00%26,00%

5.7- Falta de Sustentação do seu Parque Industrial

A Metade Sul tentou desenvolver seu parque industrial, baseado nas suas produções tradicionais, mas ficou demasiadamente dependente de compradores de outros Estados e, principalmente do comércio exterior.
Faltou mais informação, maior capacitação e menor dependência de créditos bancários, e de mercados estrangeiros.

5.8- A Atual Falta de Força Política

Quando falamos que dos 497 municípios existentes no Rio Grande do Sul, 391 estão na Metade Norte e apenas 106 na Metade Sul, quando falamos que dos 10.000.000 de habitantes que povoam o nosso Estado, 74% estão localizados na Metade Norte e 26% na Metade Sul, torna-se fácil entender certas realidades que tornam a Metade Sul fraca também na representação política Federal e Estadual.
Hoje, dos 31 Deputados Federais representantes do Rio Grande do Sul na Câmara Federal, apenas 4 são da Metade Sul e 27 são da Metade Norte.
Saindo da área político representativa Federal e entrando nessa mesma área a nível Estadual, o problema é mais agudo e grave. Vejamos: dos 55 Deputados Estaduais, 47 são da Metade Norte e 8 são da Metade Sul, dos 32 Secretários do Governo do Estado, 31 são da Metade Norte e apenas 1 é da Metade Sul.
Sem uma "força" política maior, na Metade Sul, o poder decisório a seu favor fica muito debilitado e por essa e outras razões, do total de recursos utilizados pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul para custeios e investimentos, 93,20% são direcionados para a Metade Norte e apenas 6,80% são destinados a Metade sul.
Assim, fica muito difícil querer exercer influência política, por bons que sejam os representantes da Metade Sul, fica muito difícil corrigir as distorções que dividem o Rio Grande do Sul em duas metades desiguais, fatos todos, que estão desaguando na intenção de dividir o histórico Rio Grande do Sul em dois Estados.
Será que é o melhor caminho?
Talvez não, mas o tratamento que está recebendo a Metade Sul, está ficando cada vez mais insuportável.

5.9- Falta de Conexão Entre os Dois Maiores Portos

O maior porto marítimo do Estado situa-se na Metade Sul, é o porto de Rio Grande.
O maior porto seco do Estado, situa-se também na Metade Sul, é o porto de Uruguaiana.
Mas infelizmente, não existe entre um e outro uma melhor conexão, no propósito de somar suas importantes forças, com o propósito de produzir maiores e melhores resultados para a região.

5.10- Falta de Humildade para Mudar Rumos

Os tempos obrigam a modificar muito as nossas estruturas de trabalho, exigindo mudanças de rumos e de consciência a todo instante, na busca de melhores índices de Qualidade Total no campo, sem o que não seremos eficientes.
O mundo de hoje, pertence aos empreendedores, os acomodados estão mortos.
Diante de todas essas mudanças e transformações, onde as economias desenvolvidas no campo, passaram a ser economia de Escala em virtude de baixos rendimentos líquidos por animal e área, não podemos nem devemos dar-nos o desplante de usar de forma organizada apenas as alternativas tradicionais exploradas nos campos da Metade Sul, cabe isso sim, preocupar-nos em acharmos outras alternativas que somadas as tradicionais, venham mudar as estruturas de trabalho, aprimorando a cultura da gente que trabalha no campo e direcionando a roda da economia para o caminho do progresso e do bem estar social e econômico da Metade Sul, tão necessitada de dias melhores.
A propósito, cabe lembrar o que afirmava o Barão de Itararé, quando dizia: " Não é lamentável mudar as idéias, o lamentável é não ter idéias para mudar".
"Os donos do futuro evoluem.
Todos nós precisamos evoluir, hoje mais do que nunca, isso é uma exigência da vida e dos tempos atuais, da qual não podemos fugir.
Se uma coisa não esta funcionando bem, é necessário ter a coragem de mudar.
É essencial ter a ousadia de desafiar o que é tido como certo e reinventar sempre.
Quem não reinventar, acaba sendo reinventado na marra".
(Roberto Shiniashiky)

Se tivermos a grandeza de aprender que a vida é uma lição de humildade, certamente, vamos corrigir os problemas da Metade Sul.
Contam que Napoleão Bonaparte, quando ficou prisioneiro na Ilha de Santa Helena, no fim da sua vida, nunca aceitou o fato de que não mandava em mais ninguém e, principalmente, que já não tinha o poder de dar ordens.
Na oportunidade, em seis anos de prisão, ele usou sempre as suas roupas de Imperador, as quais ficaram velhas e sujas, mas Napoleão não as tirava. Não conseguia viver sem o poder, e o único que lhe restava, era a história das suas roupas.
Assimilar que as derrotas fazem parte da vida e que errar é uma maneira de aprender a procurar novas opções é um exercício de humildade e, ao mesmo tempo, um ato de coragem e determinação.

6- A Agroindústria

O Sub desenvolvimento da Metade Sul, comparativamente com a outra Metade Norte do Rio Grande do sul, não é ocasionado pela incompetência do comércio local; pela inabilidade dos seus Prefeitos, administradores públicos; pela incompetência dos produtores locais; pela falta de cultura da sua gente ou pelos baixos preços praticados pelos produtos saídos do campo, mas sim, pelo fato de não haver um desenvolvimento ou amparo da sua industrialização regional, de forma sustentada.
As indústrias da Metade Sul, com raras exceções, passam por maus momentos ou, já fecharam suas portas, o que é muito lamentável.
A agroindústria é muito importante numa zona produtora como é esta Metade Sul, porque ela agrega valores, multiplica renda, gera empregos e dinamiza a economia.
O desenvolvimento da Metade Sul, depende da diversificação da sua produção, da organização da sua estrutura política para que ela seja fortalecida e se torne representativa e, principalmente do desenvolvimento de agroindústrias, de pequeno, médio ou grande porte.
Entendemos que aí, na agroindústria, reside a alternativa mais clara e lúcida para poder produzir a sua recuperação social e econômica.
Já referimos no início deste trabalho, que a grande diferença entre a Metade Sul empobrecida, e a Metade Norte enriquecida, reside no desenvolvimento sustentado da Agroindústria numa Metade, e a falta de sustentação dessas Agroindústrias, na outra Metade.
Lembraríamos para início de raciocínio, que vale a pena fazer a comparação da Metade Sul, pela similaridade de resultados, com o Brasil exportador de minério bruto para o Japão, e a Metade Norte, com o Japão exportador de "agulha de toca fitas" para o Brasil.
O Brasil exporta minério bruto de ferro para o Japão, a um custo que anda ao redor de US$ 20,00 a US$ 23,00 a tonelada.
O Japão industrializa, gera empregos, expande um sem fim de outras indústrias ligadas a siderúrgicas, arrecada ao longo de toda essa cadeia produtiva e, finalmente, vende agulhas de "toca fitas" para o Brasil, ao preço de US$ 25,00 cada agulha.
Dessa forma, o Brasil fortifica um grande concorrente e prejudica o maior crescimento da sua própria indústria siderúrgica.
É importante registrar a esta altura que, quando uma região deixa de industrializar parte ou tudo aquilo que produz, fortifica outras regiões que o fazem, cria concorrentes e termina ficando dependente dessa região, inviabilizando o seu crescimento.
Isso foi exatamente o que aconteceu com a Metade Sul em comparação com a Metade Norte.
A Agroindústria multiplica a renda, é grande geradora de empregos diretos e indiretos, ajuda a fortalecer o produtor rural, distribui a renda com mais justiça e propriedade e fortalece as estruturas de consumo em massa.
Não existem melhores alternativas de geração de renda rural, de agregação de valores aos produtos agropecuários, de multiplicação de empregos a custos compatíveis com a nossa economia, de melhor distribuição de renda e dinamização de um processo interno de desenvolvimento, do que operar tudo através da montagem ou remontagem de um Parque Agro-industrial, que pelo seu dinamismo, transforma-se na força motriz de um processo voltado aos grandes objetivos sociais.
Por outro lado, o produtor rural, não encontra alternativa melhor de mercado, sem o desenvolvimento da estrutura Agro-industrial, que lhe permita atender o mercado consumidor e os diversos mercados alternativos de subprodutos industrializados.
A Agroindústria, ajuda os produtores a se capacitarem para enfrentar as novas exigências de mercados consumidores, que querem "qualidade a preços baixos", tornando-os dessa forma indireta, mais atualizados, competitivos, eficientes e afinados com os novos tempos.
O efeito retrospectivo, direto e indireto da Agroindústria, dá-se principalmente sobre a produção agropecuária, mas também, de forma muito sensível, na geração de empregos e nas áreas de serviços das pequenas cidades interioranas, que formam a Metade Sul do Estado, fortificando desse modo, as suas micro-regiões econômicas.
É importante também, analisar comparativamente, a Agroindústria com indústrias pesadas, como a de automóveis e outras semelhantes, no que diz respeito a geração de empregos.
As indústrias pesadas, assim classificadas, geram muitos empregos nas suas plantas industriais, mas poucos, na distribuição e venda final desses produtos.
Assim, uma indústria pesada, para cada mil empregos nas suas plantas industriais, tem a capacidade de gerar na distribuição, venda e revenda desses produtos, mais 2.500 a 3.000 empregos indiretos, dando a proporção multiplicadora de 1:2,5 ou de 1:3.
A Agroindústria, ao contrário, gera menos empregos nas suas plantas processadoras, mas têm o poder de multiplicar dezenas de vezes os empregos indiretos, ajudando a fixar o homem no campo e nas pequenas cidades.
Cada mil pessoas empregadas numa Agroindústria, segundo estudos de abalizados economistas e sociólogos, conseguem produzir em média no Brasil, 32.320 empregos indiretos, dando uma proporção de 1:32, 33.
Alguns setores Agro-industriais, segundo Roque Lauschner, multiplicam ainda mais os empregos indiretos.
As indústrias de laticínios, para cada mil pessoas empregados em suas plantas industriais, produzem com toda a cadeia industrial do leite e derivados, oportunidade para empregarem 69.000 pessoas até os produtos chegarem ao consumidor final, numa proporção, portanto de 1:69.
A industrialização de óleo vegetal e derivados, aumenta ainda mais essa proporção, elevando a relação de 1:76.
De mais a mais, a multiplicação de renda e emprego de mão de obra menos preparada, no setor agropecuário, não pode dar-se diretamente, com investimentos apenas na exploração rural, mas sim, indiretamente, dinamizando as Agroindústrias.

7- Conclusão Inicial

Finalmente, lembraríamos a necessidade de diversificar a produção primária da Metade Sul, fazendo que o produtor rural entenda que necessita aprender a "somar alternativas" na sua propriedade, que necessita capacitar-se e capacitar seus empregados para aceita essas mudanças e, principalmente, que deve aprender que "o ignorante do novo milênio, não é mais aquele que não sabe ler e escrever, mas aquele que não sabe aprender, desaprender e reaprender".
Junto a essas mudanças conceituais, deverá vir o desenvolvimento Agro-industrial.
Afinal de contas, aumentando as Agroindústrias e a geração de empregos, aumentam também as compras e as vendas.
A renda se multiplica, e assim, a expansão da renda de um setor expande a renda do outro, ajudando a construir um Rio Grande do Sul melhor que o atual, mais justo socialmente em todas as suas duas metades, com o qual todos sonhamos e pelo qual estamos trabalhando.

Uruguaiana, 20/08/2001.
Francisco Jorge Bofill
Secretário Municipal da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

 
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